Exposição sensorial discute memória e a passagem do tempo em Curitiba

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“Labirinto”, exposição de André Severo na Caixa Cultural Curitiba. Foto: Brunow Camman.

Espaços deteriorados e presenças fantasmas do passado se misturam na exposição “Labirinto” de André Severo. A mostra acontece na Caixa Cultural Curitiba até 26 de janeiro de 2026, com visitação gratuita de terça-feira a domingo. O artista manipula centenas de fotografias para criar paisagens solitárias, vídeos, cenas intercaladas com textos em um Labirinto sensorial.

Essa mescla de diferentes formatos artísticos é uma força na exposição, levando a diferentes entendimentos. O percurso pelo labirinto fica fluido, pela decisão do público em quais fotos, textos e vídeos parar primeiro. As fotos da primeira parte de “Labirinto” trazem sobreposições de 7 imagens (uma para cada dia da semana) de lugares abandonados, muitos visitados em diferentes períodos. Mesmo que boa parte delas tenha sido feita antes da pandemia, ver a mostra anos depois desse período causa uma forte ligação com os anos turbulentos. A sensação de morte à espreita, de um tempo parado na memória está ali em cada desvio do caminho.

Pelo chão, diversos textos espalhados acabam interagindo com o público. No dia da abertura, os textos inteiros eram espalhados pelas pessoas que caminhavam na galeria. Um mês e meio depois, não havia um papel inteiro: todos rasgados, separados, pisoteados. Assim, até o fim da mostra, talvez não sobre nenhuma oportunidade de unir pedaços e entender o que se dizia. O significado das palavras se perde, é arrastado, como memórias que vão sendo esquecidas entre ambientes vazios.

“Labirinto”, exposição de André Severo na Caixa Cultural Curitiba. Foto: Brunow Camman.

“Uma das coisas que a arte pode nos dar de mais importante é justamente a possibilidade da gente sair da linguagem, da gente estranhar um pouco alguma coisa”, comentou o artista na abertura da exposição. Assim, os sons, imagens (fixas ou em movimento), recortes e rasgos exploram sentimentos que vão além de entender um significado da proposta.

Os vídeos também incrementam a experiência. Um cinema abandonado como que projeta o público para uma plateia vazia, e uma piscina se enche e se esvazia para ninguém nadar. O sino chama para a escola, as palavras aparecem no quadro, mas nada de alunos. O sentimento é de vazio. Uma árvore no fim do túnel parece evocar uma esperança, ainda que fantasmagórica. O artista explica que aquela era a “árvore mais solitária do mundo”: a Árvore do Ténéré era a única num raio de 200 km no meio do deserto do Saara em Níger.

“Labirinto”, exposição de André Severo na Caixa Cultural Curitiba. Foto: Brunow Camman.

Textos enquadrados trazem o personagem El Mensagero, um diálogo que o artista propõe a partir do escritor mexicano Octavio Paz – que, por sua vez, dialogava com o norte-americano Nathaniel Hawthorne. O personagem dialoga entre passado e futuro, trazendo novos significados à experiência do labirinto. Mas não o explica- lança mais camadas sensíveis e abre mais portas para entendimentos sobre memória, abandono e o futuro.

Na última sala, 366 quadros são expostos como um calendário – todos de espaços vazios. São dessas imagens que Severo tira a mescla das impressões maiores. Cada dia do ano tem seu ambiente desabitado, sua casa abandonada. A passagem do tempo é discutida ali como um caminho para o vazio. A melancolia deste trabalho é equilibrada com sensibilidade.

“Labirinto” é uma das minhas mostras favoritas de 2025. A forma como Severo equilibra diferentes linguagens e permite ao público a sentir e viver seu labirinto é muito sensível. Temas melancólicos lidados com criatividade são bem desenvolvidos e a sensação não é pesada, ainda que seja profunda.

Exposição “Labirinto”
Até 25 de janeiro de 2026
Visitação de terça-feira a sábado, das 10h às 20h, e aos domingos, das 10h às 19h
Caixa Cultural Curitiba – R. Conselheiro Laurindo, 280
Classificação livre
Gratuito

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