A potência criativa humana na peça “Ficções”

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A letra “R” quase escondida no cartaz do espetáculo “Ficções”, evocando a palavra “fricções”, já dava uma pista do que se podia esperar da apresentação. Com duas sessões em Curitiba, Vera Holtz trouxe uma série de provocações em seu monólogo. Dominando o palco e diferentes interpretações, a atriz mostrou uma história crítica da humanidade e sua potência criativa.

“Ficções” é inspirado no livro “Sapiens, Uma Breve História da Humanidade”, de Yuval Noah Harari. Rodrigo Portella assina texto e direção, e – apesar de ser um monólogo – Vera Holtz divide o palco com o músico Federico Puppi. Os dois jogam muito em cena, a trilha ao vivo conversa com a proposta criativa e favorece o dinamismo. O cenário com uma grande rocha em uma moldura se movimenta e cria novas interações com a atriz. Música, performance, arte visual vão encontrando brechas no palco.

O texto é divertido sem deixar de lado fatos relevantes. Vera interpreta vários personagens e explica isso ao público, como quem assume que tudo é ficção. Tanto que as cortinas não se abrem, estão sempre abertas: não se entra no mundo do teatro, se vive presente durante a performance.

O texto caminha por diferentes pontos de vista para deixar lúdico o livro de Harari. O professor de História divide a evolução humana em revoluções cognitiva, agrícola e científica. Para isso, Vera Holtz se passa por fóssil para contar como chegamos à espécie Homo Sapiens, e vira trigo para dizer que a domesticação e produção de alimentos permitiu o surgimento de civilizações, por exemplo.

O tempo todo Vera conversa com o marido, também chamado Harari, que interrompe a peça com ligações telefônicas. Essa brincadeira humaniza o autor de “Sapiens” e traz para a experiência individual as proposições do professor. Quando o marido Harari se desespera com as notícias ruins na televisão, resgata discussões sobre a evolução científica propostas no livro. As crises existenciais são atenuadas com interações com a plateia, como quem diz: “todos nós dividimos essas dores, então todos nós podemos dividir as soluções”.

Momentos dramáticos e cenas engraçadas se cruzam com temas contemporâneos. Depois de construir a base, a peça vai encaixando os pilares para demonstrar o poder criativo dentro da humanidade. “Ficções” celebra e também critica a forma como usamos essa criatividade. Se inventamos coisas como religiões e fronteiras, por que nos deixamos afetar por essas criações? Por que segregamos tanto os outros por ideias inventadas? E o que pode ser inventado de original que reconecte a humanidade de forma saudável?

“Ficções” e suas fricções são uma experiência que traz questionamentos essenciais ao homem contemporâneo, que coloca em movimento qualquer ideia de “Sapiens” que possamos ter.

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