Manter a tradição e ficar em território ameaçado ou escapar para começar uma nova vida? Essa premissa dá o início do espetáculo “Conto de Farida”, em cartaz no Teatro José Maria Santos, em Curitiba. A peça marca o retorno de Luís Melo aos palcos da cidade, destacando vivências de refugiados sírios e o difícil equilíbrio entre uma cultura milenar e a sobrevivência em tempos de guerra.
Com dramaturgia de Luci Collin e direção de Eduardo Ramos, “Conto de Farida” é inspirado por diferentes fontes. Relatos de imigrantes sírios e a exposição “Farida – Um Conto Sírio”, do fotógrafo brasileiro Maurício Lima, servem como referências. A exposição fotográfica, inclusive, venceu o Prêmio Pulitzer em 2016. Maurício acompanhou, por 51 dias, a fuga de uma família de Alepo, uma das mais antigas e populosas cidades sírias.
Entre os relatos, foram coletadas as experiências de Abed Tokmaji, Myria Tokmaji e Lucia Loxca. Abed e Lucia também contribuem com a parte musical, tocando alaúde e representando cantos tradicionais. A trilha tocada ao vivo tem direção de Edith de Camargo. Já o desenho de luz é assinado por Beto Bruel e Lucas Amado.
Luís Melo interpreta o pai da família, um professor e escritor que, mesmo com a perda da esposa, não consegue se imaginar fora da Síria. As irmãs Aisha e Qamar querem convencer o pai a fugir, iniciar uma nova vida em outro país. Mas o homem, ligado à tradição, não vê a fuga como possibilidade. Nesse diálogo entre sobrevivência e apego surge um texto profundo com muita emoção, bem interpretado por um elenco coeso. Com Luís Melo, dividem a cena as atrizes Mayra Fernandes, Ciliane Vendruscolo e Camila Ferrão.
O cenário da casa equilibra pilhas de livros, uma construção intelectual e tradicional, em contraste com janelas quebradas, a iminência de que a guerra, hora ou outra, vai destruir o pouco que resta da família. O pai é apegado a uma oliveira, que cria como se ali houvesse uma conexão com a esposa falecida – e há. Essa representação dá uma dinâmica muito poética à peça. A trilha sonora ao vivo é um grande ganho e ajuda na imersão – às vezes, interrompida por uma trilha gravada, o que não era necessário. Mas a imersão em cenário e som é muito bem feita e ajuda a sentir o texto, sensível e intenso.
“Conto de Farida” está em cartaz no Teatro José Maria Santos (R. Treze de Maio, 665) até 26 de março com entrada gratuita – retirando ingressos uma hora antes de cada apresentação. As sessões acontecem de 18 a 22 e de 24 a 26 de março – terça a sexta, às 20h, sábado, às 17h e às 20h, e domingo, às 11h e às 16h.

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