O movimento das ruas, a procura por ingressos, cores em cartazes e centenas de vozes e sotaques tomam conta da capital paranaense nos próximos dias. É o Festival de Curitiba, chegando a sua 34ª edição com mais de 400 atrações. O evento acontece de 30 de março a 12 de abril, e a primeira coletiva de imprensa, chamada Café com a Imprensa, trouxe algumas surpresas da edição na manhã da segunda-feira (30/03).
Convidado como atração da festa de abertura, o carnavalesco Milton Cunha veio acompanhado de Mestre Ciça e outros nomes importantes do Carnaval brasileiro. Às 9h, Cunha abriu as entrevistas com seu terno amarelo neon e uma narrativa que revelava a centenária trajetória dos carnavais. A potência negra, as narrativas do candomblé, a força do povo e os movimentos de liberdade produzidos pela mais brasileira das festas foram temas destacados pelo carnavalesco.
Cunha relembrou quando decidiu estudar as escolas de samba e as narrativas que levavam aos desfiles, causando choque na banca avaliadora. Ao ser questionado sobre pesquisar um tema “menor”, que não teria bibliografia, ele foi categórico: “eu vou inaugurar um arcabouço teórico para representar o povo brasileiro”.
Convidados
Milton Cunha comanda a aula-show “Samba: As escolas e suas narrativas” acompanhado de importantes figuras, na noite de segunda na Pedreira Paulo Leminski. Na coletiva, esteve com Mestre Ciça – homenageado no desfile da Unidos do Viradouro, vencedor neste ano -, Nilce Fran (vice-presidenta da Portela), a rainha de bateria Luara Bombom e o ator Demerson D’Alvaro, conhecido por representar Exu no desfile da Grande Rio em 2022. O que Milton lembrou, do Carnaval como momento de libertação e valorização da ancestralidade negra, foi confirmado por Demerson: “Quando me senti um rei, era Carnaval”.
A rainha de bateria frisou a importância do uso do corpo para completar a narrativa do Carnaval, e as dificuldades em remover o estereótipo sexualizado das mulheres negras nas festividades. “Nossos corpos são instrumentos para dar continuidade ao ritmo”, Luara afirmou. A presença de Nilce também destacou a relevância das mulheres em posições de liderança e ainda resgatou o respeito à ancestralidade e à velha guarda.

Com a presença de Fabíula Passini, produtora do Festival de Curitiba, Milton Cunha perguntou a ela: “por que o Carnaval?” como escolha para abrir o evento, ao que ela respondeu: “porque é o maior desfile de artes cênicas do mundo”. Esses posicionamentos reforçam a ideia do Carnaval como uma forma de narrativa e de dramaturgia afrodiaspóricas: “olha o conceito de que África, berço da humanidade, já costurava uma dramaturgia de batuque, de tambor, atravessa a diáspora e vira escola de samba”, complementou Cunha.
Luara, por exemplo, citou a falta de compreensão de alguns críticos quando a Unidos da Tijuca levou Carolina Maria de Jesus ao Carnaval e construiu um enredo considerado triste. “Ela estava contando a história que muita gente passava, a história era triste. Estava contando uma história de pessoas da nossa época que se faz necessária para que a gente consiga entender a nossa cultura. Se a gente não usar esse espaço para continuar comunicando sobre o que a gente tem de melhor na nossa cultura popular brasileira, a gente está deixando nossa história morrer.”
MCs
Depois, chegaram os apresentadores da festa de abertura: Fernanda Fuchs e Diogo Verardi, atores que fizeram sucesso com vídeos da “Malhassaum”. Eles falaram sobre como as observações do dia a dia inspiram na criação de personagens, e de algumas surpresas para a noite.
Grupo Galpão
A entrevista seguinte destacou a peça “(Um) Ensaio sobre a Cegueira”, adaptação do livro clássico de José Saramago pelo consagrado Grupo Galpão. O texto traz algumas adaptações em relação ao romance, incluindo observações e novas interpretações sobre fundamentalismo religioso, por exemplo. A companhia cita a empatia como tema na adaptação e os desafios do mundo contemporâneo para um mundo menos combativo. “É a cegueira de não ver o outro”, comentou a atriz Fernanda Vianna sobre temáticas do espetáculo.
O Grupo Galpão costuma buscar inovações na forma fazer teatro. “Se o Galpão não foi pra rua, ele trouxe a rua para dentro do palco”, Fernanda afirmou. Nessa montagem, recebem pessoas do público para interagir como se estivessem no universo do livro, no qual uma cegueira acomete quase toda a população humana.
Depois de ter passado pelo Festival por mais de dez vezes, essa será a primeira apresentação do Galpão sem Teuda Bara. A atriz faleceu no fim do ano passado e foi homenageada, tendo seu nome incluído na Sala de Imprensa Teuda Bara e Maurício Vogue. Mesmo sem a presença física dela, o grupo destaca sua energia:” tem muito da energia da Teuda no processo”.
Produção
Encerrando a manhã de entrevistas, a produtora Fabíula Passini, o criador do Festival de Curitiba Leandro Knopfholz e a curadora Giovana Soar destacaram a 34ª edição. Comentaram como foi trazer Milton Cunha e o Carnaval carioca para Curitiba e também a presença de companhias de várias regiões do Brasil. Um dos tópicos deste ano para as escolhas de peças para a Mostra Lucia Camargo foi valorizar atores muito talentosos, mas ainda pouco conhecidos do grande público. Outro eixo importante foi o de promover inclusão da cultura popular brasileira e a circulação de projetos relevantes.

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