Papas, bailarinas e a dialética das utopias – Dia 07 das entrevistas no Festival de Curitiba

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“Para mim, teatro só interessa se tiver diálogo com a plateia”, explicou o diretor Munir Kanaan, “se não, vou pregar pra convertido, e isso no teatro não me interessa de nenhuma maneira”. Ele esteve na coletiva de imprensa do dia 06/04 no Festival de Curitiba, discutindo sua montagem de “Dois Papas”. A importância do diálogo foi uma temática que caminhou nas falas de outros entrevistados do dia – as equipes das peças “A Bailarina Fantasma” e “Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo?”, todas da Mostra Lucia Camargo.

Linguagens e opressões

“A Bailarina Fantasma” traz dramaturgia de Dione Carlos a partir das vivências da bailarina negra Verônica Santos. As duas se conheceram em um evento, dois dias depois da bailarina ter uma gestação anembrionária e acabou perdendo o bebê. O que foi um dos diversos momentos de dor ao longo de sua trajetória, virou um relato que desenvolveu uma amizade poderosa e parceria artística entre as duas – e entrou em cena.

A montagem passeia por várias linguagens, o que torna a classificação – se é balé, teatro, performance – difícil, ou quem sabe, inútil. O processo de criação levou a um espetáculo que mistura uma mostra de diferentes artes que caminham pela apreciação e discussão. O diretor Fernando Gimenes colocou uma mediação artística-psicanalista de Rafael Costa, que ajudou a construir a jornada da bailarina de forma sensível, no que surgiu um “balaio ancestral” de vivências e itens que se tornaram material para Dione Carlos, criando a partir daí a dramaturgia.

Esse processo criativo inovador e coletivo reúne as várias dores pessoais – que se refletem na sociedade – de uma bailarina negra. Verônica conta que, antes mesmo de ser alfabetizada, já sofria racismo. Até foi acusada de pegar uma meia-calça que não era sua na escola de balé clássico, entre outras experiências racistas, que se entrecruzam com a referência da “Bailarina de 14 anos”, escultura do francês Edgar Degas. A escultura é carregada de uma história tensa, que envolve pedofilia e abusos de jovens artistas.

São diversos cruzamentos que criam um espetáculo sem classificações, mas cheio de sensibilidade. “É público, é crítico, é denúncia”, explica Verônica, “esgota rápido, então tem gente interessada em saber o que está acontecendo. Isso já é algo interessante para a gente como equipe, para os festivais, os espaços. Se as pessoas entendem isso como teatro, dança, aí cada um com a intelectualidade que tem, que assuma. Eu quero mais que a gente consiga cada vez mais ter pessoas assim, querendo escutar, para que a gente possa trocar.”

Dialética religiosa

Elenco e diretor de Dois Papas. Foto: Brunow Camman.
Elenco e diretor de Dois Papas. Foto: Brunow Camman.

“Dois Papas” ganhou visibilidade mundial com o filme, mas nasceu nos palcos. A peça de Anthony McCarten é um exercício imaginativo da conversa entre o Papa Bento XVI (aqui, interpretado por Zécarlos Machado) e o Cardeal Bergoglio (Celso Frateschi), que viria a se tornar o Papa Francisco. Idealizações muito diferentes entre o conservadorismo e uma abertura mais liberal da Igreja Católica se opõe em um texto complexo e interessante. Os atores falaram sobre buscar a humanidade de cada personagem – mesmo de Bento XVI com suas problemáticas (como o passado na Juventude Hitlerista e a falta de combate à pedofilia dentro da Igreja).

“Independentemente de ser teatro, de ser uma obra de arte, ter um estilo, uma estética, uma ética, traz também questões bastante presentes do universo político, social, que está dentro do Vaticano e está dentro do nosso cotidiano”, comentou Zécarlos. Cada personagem tenta, à sua maneira, repensar a forma de comandar a Igreja. “A peça traz uma possibilidade – mesmo entre o conservadorismo e o liberalismo – de diálogo, onde é possível a humanidade prevalecer”, complementou o ator.

“Pai Contra Mãe”

Jé Oliveira de Pai Contra Mãe ou Você está me Ouvindo no Festival de Curitiba. Foto: Brunow Camman.
Jé Oliveira de Pai Contra Mãe ou Você está me Ouvindo no Festival de Curitiba. Foto: Brunow Camman.

A coletiva do Festival de Teatro encerrou com a conversa com Jé Oliveira, diretor e idealizador de “Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo?”. O espetáculo, inspirado em texto de Machado de Assis, discute racismo e a luta contra a abolição. “Pai Contra Mãe”, segundo Jé, é um ponto de interesse importante para entender Machado como abolicionista, que discute os reflexos da escravidão. O conto de 1906, menos de 20 anos da abolição, dialoga com a peça: “(Machado) está ali pensando os resquícios da abolição. Foi aí que eu quis abordar a reflexão de hoje: o que disso ainda permanece, com quais caras e quais as consequências históricas disso”.

A manutenção de privilégios é hoje uma consequência dos tempos de escravidão, e a vigilância de corpos negros é atual. A encenação traz câmeras de segurança – em analogia com os anúncios de pessoas fugidas sendo capturadas. Na peça, um casal negro passa pela acusação de roubo em um mercado. O autor também equipara o supermercado atual com os mercados negreiros. E o título reflete uma tentativa de diálogo – a adição de “você está me ouvindo?” é um pedido, aponta Jé: “a sensação de que ninguém está ouvindo, ou só uma parte está ouvindo, justamente a parte oprimida. Esse ‘você está me ouvindo?’ é uma chamada ao diálogo, ‘vocês não estão vendo o que está acontecendo? Como a gente consegue agir?’”

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