Conexões argentinas e memórias latinas – Dia 08 das entrevistas no Festival de Curitiba

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As conexões internacionais fervilharam nas conversas da coletiva de imprensa do Festival de Curitiba na terça-feira (07/04). Espetáculos dos mais variados tipos, da comédia ao experimental, trazem elenco, textos e artistas da Argentina. Outro tema em alta foi a memória, com a comemoração dos 50 anos da Funarte e o lançamento de um livro da fotógrafa Lenise Pinheiro.

Amores Portenhos

A primeira montagem internacional de “Visita a Domicílio”, do dramaturgo portenho Roberto Romero, estreia no Festival de Curitiba. O nome de peso da dramaturgia contemporânea em Buenos Aires recebe o tratamento dos diretores Zé Guilherme Bueno e Miguel Arcanjo. “O texto fala de encontros, desencontros e reencontros”, comentou Bueno. Em cena, o ator brasileiro Cícero de Andrade e o argentino Juan Tellategui interpretam dois homens com mais de 40 anos que se reencontram depois de um namoro na adolescência.

A peça valoriza as vivências gays depois dos 40 anos, passando não só por dramas românticos, como dialogando com questões como etarismo e maturidade. “A idade faz com que a gente faça as travessias com mais resiliência, afeto e amor”, afirmou Cícero. “O diretor Miguel Arcanjo complementou: “é um espetáculo feito de amor, totalmente”.

Contos Andinos

A pesquisa da artista Ailén Roberto, iniciada nos contos de povos andinos na Argentina, desceu a montanha e encontrou outras lendas interessantes de outros povos, inclusive no Brasil. Mitos Yanomami e Calchaquí (da Argentina) estão entre eles. “Nosso desejo é aproximar as infâncias da natureza e revelar esses mistérios do mundo”, a artista pontuou. O diretor Cadu Cinelli ainda discorreu: “esses mitos são possibilidades de abraçarmos nossa realidade sob outras perspectivas”.

A atriz escolheu a Noite como personagem, que vai narrando os mistérios para crianças e adultos. E escolheu Cadu para ajudar a construir essa história com sensibilidade. Os dois desejam combater o “déficit de natureza”, um afastamento do contato natural que afeta o mundo contemporâneo. E as narrativas de povos originários têm esse poder.

“Atrás das Paredes”

A violência familiar é desvelada na peça “Atrás das Paredes”, da Cia Plágio de Teatro. No texto, uma mulher convida os vizinhos para comemorar o aniversário do marido, mas está planejando revelar os abusos que sofre dentro de casa. A companhia reflete como algumas famílias escondem problemas graves e protegem homens violentadores para preservar um conceito deturpado de família. “Tem um lugar em que o teatro coloca a gente para ver os nossos horrores em coletividade, poder conversar sobre eles”, explicou a atriz Bianca Terraza.

Lenise Pinheiro

A fotógrafa Lenise Pinheiro apresenta seu novo livro sobre o Teatro Oficina no Festival de Curitiba. Foto: Brunow Camman.
A fotógrafa Lenise Pinheiro apresenta seu novo livro sobre o Teatro Oficina no Festival de Curitiba. Foto: Brunow Camman.

A fotógrafa Lenise Pinheiro apresentou seu livro “Teatro Oficina – Fotografias de Lenise Pinheiro – Vol. 2”. O lançamento aconteceu no mesmo dia, na programação do Festival. São centenas de imagens capturadas, em especial, entre 2014 e 2024, nos últimos anos da companhia ainda com a presença de Zé Celso Martinez Corrêa. O livro tem apoio da Funarte (Fundação Nacional das Artes), que recentemente a nomeou Mestra das Artes por sua grande contribuição à fotografia teatral.

A Funarte, celebrando 50 anos, tem fortalecido a Diretoria de Memória, aumentando seu quadro e seu atuação na divulgação e preservação de acervos. O lançamento caminha na mesma seara do decreto que institui a Política Nacional Artes, assinado no mesmo dia da abertura do Festival de Curitiba. “A memória é o futuro”, explicou o presidente substituto da Funarte, Leonardo Lessa. “É um direito do cidadão e da cidadã acessar as artes, portanto é um dever do Estado brasileiro fomentar agentes artísticos, coletivos, eventos continuados, como é o caso dos festivais, que são a grande plataforma de promoção a esse acesso.”

Dança nas chamas

Um espetáculo argentino resgata uma história macabra: as bailarinas queimadas e às vezes mortas pelas chamas de lâmpadas a gás no século XIX. “Bailarinas Incendiadas”, da diretora Luciana Acuña, resgata esse passado trágico e dialoga com o momento atual, para ver o que mudou, e quais são os novos riscos para artistas. “Gosto de trabalhar com a contradição”, revelou. Então, as bailarinas do passado se cruzam com um som punk eletrônico, criando nesta dicotomia uma nova leitura.

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