No último dia de entrevistas, a coletiva de imprensa do Festival de Curitiba teve um balanço de como foi a edição 2026. Também participaram artistas de outros espetáculos ainda em cartaz, mostrando importantes pontos do Festival como a diversidade e o acesso à cultura. Foram mais de 400 atrações, entre peças, bate-papos, oficinas, lançamentos de livros e outros eventos artísticos, atingindo cerca de 200 mil pessoas ao longo da programação – que encerra no domingo, 12 de abril.
Marcus Montenegro
O artista e gestor cultural Marcus Montenegro celebra 40 anos de carreira com uma conversa no Interlocuções. Ele contou histórias de quando trabalhou com grandes atrizes como Nathália Timberg, muito envolvida com toda a produção dos espetáculos, por exemplo. Disse que, anos atrás, só o nome de uma grande atriz já atraía público, mas que isso tem mudado. O público em geral tem mais interesse na vida pessoal de famosos, e de ver quem está em alta. Mas que também há um público jovem interessado em arte e em seguir carreira artística de forma profissional. “Vejo uma legião de jovens ávidos por cultura”, comentou. “O papel da arte é transformarmos as pessoas, criar humanização para um mundo melhor”.
Autoficção
Famoso por seus livros de autoficção, o francês Édouard Louis ganhou uma adaptação, agora em cartaz no Festival de Curitiba. “Mulher em Fuga” se baseia em seus escritos focados na mãe, que revelam uma relação complexa e detalhes da infância de pobreza e do abandono paterno. Mais focado na mãe do que em Édouard, o espetáculo trata de temas como maturidade, amadurecimento, abandono de sonhos e a força para continuar batalhando. “Ela é uma jovem que não pode ser”, comenta a atriz Malu Galli, sobre como a personagem abriu mão de muitas coisas para criar os filhos.
A peça tem trazido momentos de transformação para o público. Malu contou como algumas mulheres falam com ela ao final de sessões sobre se identificar com a personagem e como isso as motiva a repensar situações de abuso e abandono. A atriz ainda chorou ao pensar nesses casos, no feminicídio e na recente queda do veto ao projeto de lei da Dosimetria, derrubando uma tentativa de aumentar a pena para agressores e assassinos de mulheres. “É muita luta”, concluiu.
Guritiba
O fim de semana tem outro espetáculo infantil na mostra Guritiba: “Da Janela”. O espetáculo coloca em cena atores ouvintes e surdos para contar sobre uma amizade também nesse formato. Uma criança surda se muda para o bairro de outra garota ouvinte, e ao tentar entender a linguagem uma da outra, vivem muitas diversões. A inclusão se dá não apenas pelo tema, mas diretamente na cena.
Marco dos Anjos, diretor da Trupe do Experimento que apresenta a peça, fala sobre uma descrição poética, ou seja, uma forma da pessoa se identificar para pessoas cegas declarando não só o que está vestindo e como se parece, mas já apresentando características pessoais, o que dá mais dinâmica nas relações e inclui a pessoa surda na conversa, por exemplo. Essa inclusão vai além do colocar dispositivos como audiodescrição ou intérprete de Libras, é repensar o formato teatral. “Você disponibiliza o recurso e mostra que essas pessoas são bem-vindas ao teatro”, destacou o diretor.
“Cabo Enrolado”
Julio Lorosh usa vivências pessoais para discutir o trabalho de entregadores de aplicativo em “Cabo Enrolado”. A peça usa esse contexto para tratar dos sonhos e dificuldades dos jovens periféricos. A moto, que simboliza tanto uma liberdade quanto uma possibilidade de emprego, vem carregada de desejos e também distinção social. “Tem uma cultura da motocicleta na periferia e o mercado responde a essa demanda”, explicou Julio.
A partir do espetáculo, também surgem discussões sobre direitos trabalhistas e a relação com a infância. O ator leva a peça para teatros da periferia e vê as relações dos motoboys com o texto, e assim como a equipe de “Da Janela”, trata da aceitação de novos públicos dentro do teatro. “Teoricamente, a pessoa tem que se sentir convidada (e ir ao teatro). E aí além de não se sentir convidada, ela tem que se sentir bem-vinda. Eu estava conversando com um parceiro que disse: ‘que engraçado, a gente vai pro centro ver teatro, mas ninguém vem na favela ver teatro’. Se faz muito bom teatro na periferia brasileira.”
Balanço
Os diretores do Festival de Curitiba, Fabíula Passini e Leandro Knopfholz, encerraram a série de coletivas de imprensa com um balanço da 34ª edição. “A gente adora quando as pessoas enxergam a gente como possibilidade de expansão”, comentou Fabíula. Muitas das peças apresentadas no Festival foram apresentadas em suas cidades-natais e ganharam nova vida com a possibilidade de vir a Curitiba. E o público responde a isso: segundo a produção, nenhum espetáculo foi cancelado por falta de público durante o festival. Na parte econômica, o Festival gerou mais de 600 empregos diretos e mais de 2 mil indiretos, gerando um impacto econômico no setor do turismo numa estimativa de R$ 50 milhões.
O clima da cidade também muda nessa época, com ainda mais arte e cultura pelas ruas e praças. Espetáculos viram temas de conversas e há uma grande troca cultural entre artistas e público de vários lugares do país e até de fora. “A arte proporciona essa convivência e tolerância com o diferente, o respeito à diversidade”, opinou Leandro Knopfholz. “A formação humana passa pelo repertório”, adicionou, falando sobre a relevância de apresentar vários trabalhos artísticos em um só evento. Assim, o Festival de Curitiba se consagra como esse espaço de criatividade e formação humana plural.

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