“Diga pra ele não fazer isso!”, meu tio-avô Pancho falou para a minha avó quando ficou sabendo que eu tinha passado no vestibular de Jornalismo. Na época, quando meu convívio com ele ainda era raro, achei que era um desestímulo genuíno. Foi com o passar dos anos que entendi a carga cômica que cada fala do jornalista Francisco Camargo carregava.
Na infância, eu só sabia que ele fazia “tirinhas”, as charges que marcaram anos do jornalismo paranaense. Geralmente com um só quadro e uma fala carregada de vários significados. Para quem viveu nas redações durante a ditadura, devia ser natural incluir subtextos a cada frase. Parte da sua história eu só fui saber bem mais velho – quando já tinha idade para conseguir entender a maioria (mas não todas) as suas charges.
Irmão mais novo do meu avô Adilson, não era tão afeito a grandes eventos sociais. Até os encontros da família no Natal foram ficando mais raros. Mas ele era sempre mencionado, na lista dos sete irmãos Camargo. Meu avô comentava que fora ele que introduziu Pancho nas redações, ao pedir para um amigo arranjar um emprego para o “mano”. Mas não com muito orgulho – às vezes, pensava que foi essa entrada no jornalismo que deu uma visão mais pessimista da vida para o irmão.
A questão é que o tio Pancho tinha muito humor. Sarcástico, cheio de camadas, como se além dos Camargo também fosse irmão do Groucho Marx. Quando eu me formei e passei a fazer assessoria de imprensa com o filho dele, Fabiano, percebi isso. Entre a fumaça dos cigarros de cheiro muito forte, soltava também comentários de duplo, triplo sentido, com uma risada contida.
Lembro bem do dia em que ele abriu um e-mail e o computador do escritório ficou com vírus. Era um daqueles “as fotos da nossa festa ficaram ótimas” com um vírus em anexo. Ele clicou como quem acredita piamente nos outros. “Eu não lembrava de ter ido em alguma festa, mas queria ver, vai que fui e não me lembro”, disse. Ir à festa não era essencial para ele, mas a dúvida de o terem registrado, a necessidade da confirmação típica do apuro jornalístico e a crença numa boa fé de um e-mail desconhecido, eram da sua natureza.
A curiosidade pelo fato e a forma como ele instigava os colegas foi muito lembrado no velório. Encontrei vários jornalistas no dia seguinte ao falecimento (ele se foi em 18/08/2026) comentando quão boas eram suas sugestões de pauta, sem erros de português, bem escritas. Não à toa, passou por vários jornais, como O Estado do Paraná, Gazeta do Povo, Última Hora, Correio de Notícias e Tribuna do Paraná.
Os colegas de trabalho se emocionavam com a despedida. “Trabalhamos e bebemos muito juntos”, foi uma frase que ouvi. O Tio Pancho gostava de beber e fumar, e suas charges dos personagens Rollmops e Catchup mostravam essa vida boêmia sem romantismos. Frases que misturavam filosofia clássica com filosofia de boteco eram temperadas com seu humor peculiar. Algo que só com o tempo se pode entender.
A despedida do meu tio-avô foi marcada pelos amigos de jornalismo e pela família, que arriscavam uma piada ao estilo do Pancho para quebrar o tom melancólico do evento. A sobriedade de um velório era algo que ele não perdoaria.
Até hoje penso nas camadas de humor e verdade que aquele aviso dele, para que eu não fizesse jornalismo, carregavam. Tio Pancho dedicou décadas aos jornais, aos fatos e ao equilíbrio entre a seriedade e a leveza do humor da vida. Se era um jornalista enciumado de sua amada profissão ou preocupado com o peso de lidar com a carga das informações, com o choque diário de realidade, com as checagens, com o histórico que ele passou em mais de 50 anos de redações, já não sei.
Pela quantidade de colegas no seu velório, entendo que era um pouco de tudo. Mas, definitivamente, era um aviso carregado de humor.
Foto: arquivo pessoal.

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