A melancolia faz parte da vida – e, portanto, também do teatro. A nova peça da Trupe Ave Lola não deixa de lado esse sentimento. “Lucrécia” teve uma temporada entre agosto e setembro, com sessões lotadas. O grupo vem apresentando ótimas montagens – inclusive, está de volta com “Cão Vadio” de 09 a 20 de setembro.
Em “Lucrécia”, a trupe volta a usar o teatro de bonecos, interagindo com atores e músicos para contar a história de uma idosa e suas lembranças. Agentes de um lar de idosos batem à porta da mulher centenária para levá-la, o que a faz se prender no armário e iniciar uma viagem pelas memórias.
O espetáculo tem pouquíssimas falas em português, depois partindo para uma língua desconhecida, o que torna a 1h30 de peça algo bem contemplativo. Tudo o que conseguimos entender são interações e emoções a partir dos atores e dos bonecos. O elenco, com Wenry Bueno e Helena Tezza, mostra um preparo incrível nas cenas. Algumas partes mais divertidas se dão com a destreza dos dois.
Os músicos em cena, Arthur Jaime e Breno Monte Serrat, complementam as interações e fazem a trilha sonora ao vivo. Isso dá uma diferença para a montagem, com uma ambientação espacial ampla. O cenário também é lindo e muito bem elaborado. A cena em que os personagens mergulham é a mais bonita.
A história acaba trazendo trechos da vida de Lucrécia, em certos momentos parece que ela, hoje, está lá revisitando as cenas. Algumas românticas, outras muito tristes, tudo está na memória da personagem, trancado naquele armário. Assim, algumas partes não são muito claras. Eu entendi, por exemplo, que ela era imigrante – pela língua desconhecida, por uma viagem com apito de navio – mas foram detalhes que outras pessoas da plateia entenderam diferente.
O espetáculo acaba não sendo uma narrativa linear, surpreendendo mesmo quem sabe que se trata das memórias da idosa. O tom melancólico que acaba ficando mesmo com cenas divertidas dá uma sensação inesperada, mas que faz sentido com a construção do texto. É um trabalho emocionante, mas cujas emoções são bem diferentes de trabalhos anteriores como “Sonho de Uma Noite de Verão”, que foi um estrondoso sucesso da Trupe.
A mágica e o talento da Ave Lola, com certeza, também estão ali, costurando narrativas inovadoras.
Foto: André Tezza.

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