Qual a relação entre a psiquiatra brasileira Nise da Silveira e a escritora sul-coreana Han Kang? São as Mulheres-plantas.
Han Kang é autora de “A Vegetariana”, um livro de 2007 que venceu importantes prêmios. A escritora, mais tarde, inclusive ganhou o Nobel de Literatura. No livro, a protagonista decide parar de comer carne, e isso é visto de formas diferentes pelas pessoas à sua volta, como o marido, o cunhado e a irmã.
Ao longo da trajetória, o leitor vai entendendo que a protagonista Yeonghye deseja algo maior do que parar de comer carne. A mulher vai silenciando cada vez que procura pela liberdade e é atacada, especialmente por homens, em seus desejos. Eu li o livro em 2022 e fiquei impactado com a escrita.
Han Kang escolhe revelar a história sempre pela visão dos outros, então não temos clareza no que Yeonghye pensa. Entendemos a vida dela a partir do assombro dos outros, e não pela empatia frente à sua condição. A mulher escapa para um idealismo do mundo vegetal ao enfrentar violências – do abuso até à compreensão de sua condição feminina que impede uma liberdade total de seu corpo.
Pensei muito nesse livro quando me deparei com a arte de Adelina Gomes. A exposição “Nise – A Revolução Pelo Afeto” está em cartaz na Caixa Cultural Curitiba, com diversos trabalhos de pacientes da Nise da Silveira. A psiquiatra foi uma revolucionária do tratamento mental e valorizava o contato dos internos do hospital psiquiátrico com a arte. Adelina Gomes era uma de suas “clientes” – Nise se recusava a chamar as pessoas de “pacientes”.
Nascida em 1916, em Campos dos Goytacazes no Rio de Janeiro, Adelina foi internada no Hospital Pedro II pela família por apresentar sintomas psiquiátricos e quadros agressivos. O relato da médica inclui uma paixão por um homem que não foi aceito pela família de Adelina, o que poderia ter relação com seu comportamento cada vez mais retraído e violento.
Com a terapia de Nise, Adelina passou a trabalhar diversas artes – chegou a executar milhares de peças. Um tema recorrente é a transformação de mulher em planta. Uma mão que vira flor, um corpo em pétalas. Nise teria identificado relação com o mito de Dafne, ninfa perseguida por Apolo e que prefere se transformar em um loureiro a ser capturada.
Achei curioso como as obras de Adelina me lembraram “A Vegetariana”. As mulheres-planta que se veem obrigadas a abandonar desejos e se convertem em vegetal. Há uma lentidão e beleza efêmeras nas plantas, mas também algo de crescimento incontrolável. A aparente paz das plantas se opõe à opressão e violência estrutural às quais essas mulheres são submetidas.
A exposição “Nise – A Revolução Pelo Afeto” está em cartaz na Caixa Cultural Curitiba (R. Cons. Laurindo, 280) até 11 de outubro. Visitação gratuita de terça-feira a sábado, das 10h às 20h, e aos domingos, das 10h às 19h. Informações: Caixa Cultural Curitiba e Mostra Nise.

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